Os Reis Magos - Capítulo V
Algum tempo antes do nascimento, tanto na Palestina como nos países vizinhos e no Oriente, correu o aviso, dado pelos sábios assírios e caldeus entendidos em astrologia, que estava se formando, em dado ponto do Zodíaco, uma estranha e imprevista conjunção de corpos celestes: aproximavam-se Júpiter, Saturno e Marte.
Isso, diziam eles, era sinal de acontecimentos graves, podendo sobrevir cataclismos e sofrimentos imprevisíveis.
Por isso, em toda parte, o povo, ansioso e atemorizado, perscrutava os céus, noites seguidas, na expectativa das desgraças anunciadas.
Mas os sacerdotes do Templo de Jerusalém sabiam que era chegada a época do nascimento do Messias de Israel e se rejubilavam esperançosos, enquanto que Herodes — chamado o Grande — no seu palácio de mármore e pedra escura, de Jericó, ou em Jerusalém, remordia-se de inquietações, na suposição de que tal acontecimento lhe roubasse o trono e o poder, dados por César, porque as esperanças e desejos do povo, bem sabia, eram para um Messias nacional, que assumisse o poder em Israel, proclamando-se rei e expulsasse os romanos invasores.
Nas terras pagãs da Grécia, Egito, Arábia, Pérsia e Índia as sibilas, também, já tinham, há muito tempo, profetizado a respeito do nascimento e, por isso, uma geral e profunda expectativa existia, de um acontecimento extraordinário que abalaria a vida dos homens e mudaria o destino do mundo.[8]
Até que enfim, numa dessas noites frias e estreladas do inverno palestino quando, na profundidade dos espaços siderais, se completava a conjunção insólita, as vibrações celestiais desceram sobre Belém e envolveram a casa humilde onde o Menino-Luz estava nascendo.
E os pastores rústicos, enrodilhados nos seus mantos, nas encostas dos montes próximos, beneficiados de incrível lucidez, viram os clarões luminosos que desciam do céu e ouviram o coro inaudível dos Espíritos clamando, para todo o mundo: "Glória a Deus nas alturas e Paz na Terra aos homens de boa vontade”.
E assim, mais uma vez, as forças das trevas foram vencidas…
Mas, este fato foi também percebido pelos sensitivos das Escolas de Sabedoria já citadas, sobretudo pelos Essênios, que se mantinham em prece, vigilantes, aguardando a hora do grande evento, do qual tiveram logo informações diretas, por intermédio dos adeptos da Ordem e pelos irmãos Terapeutas, que viajavam por toda parte, existindo, mesmo, alguns no próprio local onde o acontecimento se deu. Quanto aos demais, devido às enormes distâncias em que se encontravam, permaneceram investigando e aguardando confirmações, porque ignoravam o local exato onde o nascimento deveria ocorrer.
Mas, por fim, perceberam que a resposta estava no próprio céu, porque a estranha conjunção de astros se operava no signo de Peixes que, astrologicamente, era o que governava os fatos da nação judaica; ao demais, verificaram que a profecia de Miquéias, muito remota, já informava a respeito dizendo: “E tu, Bethleem Efrata, conquanto pequena entre as muitas
de Judá, de ti sairá aquele que será o senhor de Israel”.
Como também já o afirmara a profecia de Zoroastro, feita na Pérsia, 3.200 anos atrás, que dizia: “Oh, vós, meus filhos, que já estais avisados do Seu nascimento, antes que qualquer outro povo; assim que virdes a estrela,
tomai-a por guia e ela vos conduzirá ao lugar onde Ele — o Redentor — nasceu. Adorai-O e ofertai-Lhe presentes porque Ele é a palavra, o Verbo, que formou os céus”.
E ainda não lhes sobrava, a esses Iniciados, o recurso da mediunidade? Assim como aconteceu com os míseros pastores, que “viram e ouviram”, não poderiam ter sido eles também avisados pelos Espíritos sobre tal acontecimento, diretamente?
Nessas comunidades de solitários se realizavam práticas espirituais, como as fazemos hoje; muitos deles possuíam magníficas faculdades e um acontecimento desses, de tal significação para a vida planetária, certamente que seria revelado a todos aqueles que merecessem conhecê-lo, no momento oportuno. E entre estes se colocavam os chamados Reis Magos.
Concluindo, pois, que o Messias nascera na Palestina, esses detentores da sabedoria espiritual de maior responsabilidade, partiram nessa direção, para conhecerem e adorarem o alto espírito missionário.
A referência citada pelos próprios viajores a uma “estrelaguia” poderia ser simplesmente simbólica, a estrela em si mesma representando a conjunção de astros, como também poderia ser um Espírito visto pela vidência que, sob essa forma, serviu de guia às caravanas que buscavam aproximar-se do Menino-Luz. Não é comum nos Planos Espirituais, os desencarnados de certa categoria tomarem a forma de estrelas ou outras quaisquer? Não é sabido que os Espíritos podem assumir as formas que desejam, bastando que as imaginem? Essa, até mesmo, seria uma belíssima tarefa de participação em acontecimento de tal grandeza!
As caravanas desses Iniciados maiores viajaram durante muito tempo, vindas de suas terras distantes e, por fim, se encontraram, em feliz ou
proposital coincidência, em Sela, lugarejo situado nas faldas do Monte Hor, na Arábia, onde se reconheceram e se incorporaram a uma caravana de mulas que se aprestava para atravessar as montanhas de Moab, a leste do
Mar Morto; nesse ponto abandonaram a caravana e seguiram juntos para Jerusalém.
Mas enquanto os “Reis Magos” estudavam o acontecimento, faziam seus preparativos e realizavam sua demorada e custosa viagem, o Menino-Luz se desenvolvia: aos oito dias foi levado à Sinagoga local para ser apresentado e registrado, como era de praxe; como também de praxe que, ao oitavo dia, os recém-nascidos fossem circuncidados, costume adotado também pelos cananeus, fenícios e sírios. Para os judeus queria dizer que a criança, com isso, entrava no pacto de Jeová, passando a ser herdeira das promessas divinas, conquanto fosse também medida de higiene corporal.
Aos quarenta dias foi levado por sua Mãe a Jerusalém, onde lhe cabia promover os ritos da purificação, que se resumiam em um holocausto vivo; no caso dela, que era possuidora de parcos recursos, o holocausto era de uma pomba, entregue no Altar dos Holocaustos ao sacerdote em serviço, o qual cortava o pescoço da ave, torcia-o para trás de forma que o sangue, ao afluir, caísse sobre as brasas do Altar, findo o que a vítima, ainda estremecendo, era atirada em um recipiente existente ao lado; em seguida a ofertante passava ao Templo propriamente dito — O Santo — para que a criança fosse consagrada ao Senhor, quando primogênita — que era o caso de Maria.
No Templo havia rodízio de sacerdotes, alguns dos quais eram secretamente filiados à Irmandade Essênia, os quais já sabiam quem era o menino a ser consagrado naquele dia. Por isso prepararam, em sigilo, uma solenidade especial: Maria e José foram recebidos pelos sacerdotes Simeão de Bethel e Eleazar, rodeados de seus acólitos. As virgens de Sião cantaram hinos, e preces se elevaram aos céus, enquanto o velho Simeão, tomando o Menino nos braços, o consagrou exclamando: “Agora, Senhor, despede em paz teu servo, segundo a tua palavra, porque os meus olhos já viram a tua salvação” (Lc 2:28-30).[9]
Nesse momento, o véu do Templo, luxuoso, pesado e de enorme altura, fendeu-se, caindo para um dos lados e uma paralítica, que se achava perto, levantou-se sobre seus pés e andou.
Tudo isso, tanto no ato como depois, motivou comentários e estranhezas e, como medida de segurança para o Menino, foi ele afastado sem perda de tempo, de Jerusalém, porque qualquer fato ou circunstância que se relacionasse com o nascimento do Messias de Israel, tão esperado e já ocorrido, segundo os boatos existentes e agravados com a chegada, tão comentada, dos “Reis Magos”, despertava logo a atenção e a interferência indesejável do clero judaico e dos esbirros de Herodes.
Herodes, que sempre estivera preocupado com as profecias, assim que tomara conhecimento da conjunção planetária fora do comum, espalhara seus espiões por toda parte, à cata de algum nascimento sobrenatural (como constava das profecias) e um desses espiões viu quando os três viajantes orientais, acompanhados de seus serviçais, entraram na cidade, indagando de uns e outros: “Onde está o Messias Salvador do Mundo, cuja estrela vimos no Oriente?”. E viu também quando esses viajantes ilustres penetraram no Templo onde, naturalmente, como supunham, obteriam informações sérias e
positivas.
Aguardou a saída deles, para segui-los e descobrir o endereço que buscavam, mas os sacerdotes essênios perceberam o perigo e
providenciaram a retirada dos visitantes por passagens secretas que davam para o campo, fora dos muros, no caminho de Betânia; e dali prosseguiram eles diretamente para Belém de onde, advertidos em sonho de que não deviam mais voltar a Jerusalém, tomaram o rumo de suas terras por outros caminhos, como consta de Mateus 2:12.
Mas quando, finalmente, em Belém, foram conduzidos à presença do Menino, este já estava crescido (dez meses e meio); e foi uma cena comovente aquela em que esses altos iniciados se viram na presença do Senhor do Mundo, do Governador Planetário. Consultaram seus pergaminhos, suas anotações, fizeram sobre o Menino as verificações próprias das circunstâncias, tanto no corpo físico como no espiritual e, por fim, se convenceram de que, realmente, ali estava encarnado o Messias Planetário.[10]
Prosternaram-se, então, perante Ele e o glorificaram; fizeram-lhe ofertas úteis de recursos próprios e necessários à vida material e, após isso, guiados sempre por essênios terapeutas que conheciam o País a fundo, retiraram-se para suas longínquas terras.
O fato de o Divino Mestre ter sido pressentido em primeiro lugar por pastores humildes, prova que sua tarefa era de redenção para todos os
homens e, deixando-se adorar por altos dignitários estrangeiros, sacerdotes de religiões diferentes, testemunhava de que sua mensagem seria de extensão universal.
Extraído do livro "O Redentor". Por Edgar Armond

Comentários
Postar um comentário
Por favor, seja respeitoso. Obrigado